Agosto 6, 2008
Que cesse os feitos da lata de Pomarola,
e os caldos ralos de caldo em tabletes.
O mundo todo agita-se em pranto, fomes
e dores: morreu, senhores, Palmirinha.
Onofre, de família, honorável nome,
como faca de depenar e saleiro argênteo
da culinária nacional grão renome.
Julho 22, 2008
Homem desonrado
vai pra casa e é currado
Ontem, na capital do Estado,
ocorreu fato muito inusitado.
Antônio João Carneiro,
de profissão pedreiro,
pegou sua mulher em flagrante
mantendo intercurso com amante.
Muito enfurecido
saca a arma e dá um tiro.
O amante, muito assustado,
sai correndo, desbaratado.
Carneiro, atrás dele corre,
mas como estava de porre,
tropeça e cai no chão.
O amante, mui maganão,
vê que Carneiro caiu,
mas nem mesmo o acudiu,
as calças lhe abaixou
e ali mesmo, o currou.
Diz o povo do costado
que o amante era avantajado.
Depois, Carneiro saiu andando
e por onde anda, anda mancando.
O amante, ignorado, fugiu;
dizem que pode ter passado o rio,
junto com a mulher do currado
com o auxílio de um bote alugado.
Prestou queixa Carneiro,
mas virou troça do bairro inteiro.
Maio 7, 2008
O senhor Verderramo
foi um feliz petiz
nos seus verdes anos.
Crescido, foi ao largo São Francisco
e saiu doutor e bacharel;
começou aí a doer-lhe o menisco.
Ah, o senhor Verderramo!
que homem arrogante,
insuportável.
Mas e a pressão?
Doze por nove, quatorze por dez,
ficou instável,
quem o diria?
Um dia, no tribunal,
depois de brigar com a esposa,
o senhor Verderramo
- doutor, professor
e sodomita nas horas vagas -
sentiu-se mal.
O senhor Verderramo
morreu de derrame,
coisa tão corriqueira, trivial.
Atônitos seus estudantes,
lívidos os seus familiares.
Os colegas de faculdade e tribunal
fizeram uma vaquinha,
compraram uma coroa para o funeral.
Pagaram um anúncio
com o nome do senhor Verderramo
no necrológio
do tido melhor jornal.
Só não disseram
dos seus casos escusos.
Abril 25, 2008
A conta, por favor
Uma década nunca sai de graça:
paga-se dez anos por ela.
Abril 11, 2008
A garrafa e as borbulhas
chamam o bebado pelo gargalo:
- Vem cá, meu belo,
vem beber-me as bolhas.
Lá vai o trolha,
afogar-se num mar de cerveja
e navegar na placidez da aguardente.
Sai a tropeçar,
isso as garrafas não disseram,
que a rua girava e a mão não responderia.
Cai na calçada do bêbado
e esta lhe rouba três dentes.
O sol o acorda, com o toque ardente
no pescoço, o sol vai alto.
A pessoas lhe soltam um mar
de impropérios sussurados.
Agora a cabeça é bigorna.
Volta para a toca
a esconder-se da luz.
Março 25, 2008
Vida civil
No papel higiênico
vem estampados
coelhinhos e corações.
É para que você se esqueça
da aspereza do papel.
Assim também é
nas tratativas políticas.
Março 19, 2008
Coelhinho da Páscoa,
que trazes pra mim?
Um ovo,
dois ovos,
três ovos de aipim.
Gergelim!
Coelhinho da Páscoa, maldito!
Que porra é essa de chocolate?
Coelho bota ovo?
Que disparate!
Coelho é bom na panela.
Minha galinha de casaco.
Olho vermelho de bêbado,
dente à moda do rato.
Coelhinho da Páscoa,
tu és um fresco.
Não gosta do Côssovo,
não vais à Somália.
No Haiti não pões a patinha,
nem no Nordeste dá a cara.
Coelhinho, putinha,
só gosta dos Jardins e da Barra.
Coelhinho viado.
Março 19, 2008
Galinha é um bicho esquisito,
galinha é um bicho neurótico,
é desprovida de senso ótico,
galinha caga fedido.
Galinha, galinha!
Galinha é um bicho descoordenado,
a galinha é quase um invertebrado.
Fica ciscando o terreiro,
se bobear, bica até catarro.
Galinha é um crepe da criação,
galinha é um tilt da evolução.
Galinha é um bicho inviável,
a galinha criou a codorna!
Galinha, galinha!
A galinha se assusta com um espirro,
a galinha se assusta com um estouro,
a galinha come os besouros,
a galinha morre com um tiro.
Tem tanta gente que se acha astuta,
mas não passa de uma galinha mais arguta.
Se acumulam nas granjas da vida
perdendo tempo entre a vinda e a ida.
Março 18, 2008
Minha salada
cheirava, cheirava
azeite e vinagre
e três alcaparras.
Como ela, somos livres,
somos livres pra comer.
Março 18, 2008
O meu cigarro
queimava, queimava,
fumaça ao vento
e no lustre da sala.
Como ele, somos livres,
somos livres pra fumar.