Agosto 6, 2008

XXX. Elegia fúnebre a Palmirinha Onofre

Que cesse os feitos da lata de Pomarola,
e os caldos ralos de caldo em tabletes.
O mundo todo agita-se em pranto, fomes
e dores: morreu, senhores, Palmirinha.

Onofre, de família, honorável nome,
como faca de depenar e saleiro argênteo
da culinária nacional grão renome.

Julho 22, 2008

XXIX. Notícia de jornal em verso

Homem desonrado
vai pra casa e é currado

Ontem, na capital do Estado,
ocorreu fato muito inusitado.
Antônio João Carneiro,
de profissão pedreiro,
pegou sua mulher em flagrante
mantendo intercurso com amante.
Muito enfurecido
saca a arma e dá um tiro.
O amante, muito assustado,
sai correndo, desbaratado.
Carneiro, atrás dele corre,
mas como estava de porre,
tropeça e cai no chão.
O amante, mui maganão,
vê que Carneiro caiu,
mas nem mesmo o acudiu,
as calças lhe abaixou
e ali mesmo, o currou.
Diz o povo do costado
que o amante era avantajado.
Depois, Carneiro saiu andando
e por onde anda, anda mancando.
O amante, ignorado, fugiu;
dizem que pode ter passado o rio,
junto com a mulher do currado
com o auxílio de um bote alugado.
Prestou queixa Carneiro,
mas virou troça do bairro inteiro.

Maio 7, 2008

XXVIII. O senhor Verderramo

O senhor Verderramo
foi um feliz petiz
nos seus verdes anos.
Crescido, foi ao largo São Francisco
e saiu doutor e bacharel;
começou aí a doer-lhe o menisco.
Ah, o senhor Verderramo!
que homem arrogante,
insuportável.
Mas e a pressão?
Doze por nove, quatorze por dez,
ficou instável,
quem o diria?
Um dia, no tribunal,
depois de brigar com a esposa,
o senhor Verderramo
- doutor, professor
e sodomita nas horas vagas -
sentiu-se mal.
O senhor Verderramo
morreu de derrame,
coisa tão corriqueira, trivial.
Atônitos seus estudantes,
lívidos os seus familiares.
Os colegas de faculdade e tribunal
fizeram uma vaquinha,
compraram uma coroa para o funeral.
Pagaram um anúncio
com o nome do senhor Verderramo
no necrológio
do tido melhor jornal.

Só não disseram
dos seus casos escusos.

Abril 25, 2008

XXVII. Brossiana (II)

A conta, por favor

Uma década nunca sai de graça:
paga-se dez anos por ela.

Abril 11, 2008

XXVI. Bêbado

A garrafa e as borbulhas
chamam o bebado pelo gargalo:
- Vem cá, meu belo,
vem beber-me as bolhas.

Lá vai o trolha,
afogar-se num mar de cerveja
e navegar na placidez da aguardente.

Sai a tropeçar,
isso as garrafas não disseram,
que a rua girava e a mão não responderia.

Cai na calçada do bêbado
e esta lhe rouba três dentes.

O sol o acorda, com o toque ardente
no pescoço, o sol vai alto.
A pessoas lhe soltam um mar
de impropérios sussurados.

Agora a cabeça é bigorna.
Volta para a toca
a esconder-se da luz.

Março 25, 2008

XXV. Brossiana

Vida civil

No papel higiênico
vem estampados
coelhinhos e corações.
É para que você se esqueça
da aspereza do papel.

Assim também é
nas tratativas políticas.

Março 19, 2008

XXIV. Coelhinho da Páscoa

Coelhinho da Páscoa,
que trazes pra mim?

Um ovo,
dois ovos,
três ovos de aipim.
Gergelim!

Coelhinho da Páscoa, maldito!
Que porra é essa de chocolate?
Coelho bota ovo?
Que disparate!

Coelho é bom na panela.
Minha galinha de casaco.
Olho vermelho de bêbado,
dente à moda do rato.

Coelhinho da Páscoa,
tu és um fresco.
Não gosta do Côssovo,
não vais à Somália.

No Haiti não pões a patinha,
nem no Nordeste dá a cara.
Coelhinho, putinha,
só gosta dos Jardins e da Barra.
Coelhinho viado.

Março 19, 2008

XXIII. Galinha

Galinha é um bicho esquisito,
galinha é um bicho neurótico,
é desprovida de senso ótico,
galinha caga fedido.

Galinha, galinha!

Galinha é um bicho descoordenado,
a galinha é quase um invertebrado.
Fica ciscando o terreiro,
se bobear, bica até catarro.

Galinha é um crepe da criação,
galinha é um tilt da evolução.
Galinha é um bicho inviável,
a galinha criou a codorna!

Galinha, galinha!

A galinha se assusta com um espirro,
a galinha se assusta com um estouro,
a galinha come os besouros,
a galinha morre com um tiro.

Tem tanta gente que se acha astuta,
mas não passa de uma galinha mais arguta.
Se acumulam nas granjas da vida
perdendo tempo entre a vinda e a ida.

Março 18, 2008

XXII. Ode aos vegetarianos

Minha salada
cheirava, cheirava
azeite e vinagre
e três alcaparras.

Como ela, somos livres,
somos livres pra comer.

Março 18, 2008

XXI. Ode aos fumantes

O meu cigarro
queimava, queimava,
fumaça ao vento
e no lustre da sala.

Como ele, somos livres,
somos livres pra fumar.