Fevereiro 19, 2008

XX. Andanças: coprocéfalo

Por minhas andanças na cidade grande, eu, Sigismundo Salamardo, vi vários animais, de vários tipos e espécies. Nos meus estudos de Zoologia e Botânica urbanas, me é obrigação destacar um animal muito peculiar: o coprocéfalo bípede, presente em grande número pelas paragens urbanas. O coprocéfalo bípede é um mamífero que vive da luz dos raios catódicos, emitidos principalmente por tubos de televisão. Assiste e comenta todo tipo de programa descartável: programas de auditório com raparigas semi-nuas, mesas redondas de ludopédio e espectáculos de ‘realidade assisitida’, como o ‘Grande Hermano’. E assim o coprocéfalo faz juz ao nome que carrega: enche a sua cabeça de merda.

Fevereiro 1, 2008

XIX. À monsieur le gouvernateur de l’État

Mariazinha, com’eu queria,
sair-me cá da terra,
dar uma cochiladinha
na caminha do Serra.

Janeiro 20, 2008

XVIII. Bela poesia em -ão

Para que não digam que rimas em -ão são pobres. É mero preconceito vulgar.

Voa o balão,
Cai o varão,
Nasce o grão,
Fazemos sabão,
Limpamos a mão.

Janeiro 4, 2008

XVII. Festival de haikais

Churrasco

Patinhas na telha,
pego o gato malhado,
vai parar sobre a grelha.

Elevador

É o vale estreito,
como o elevador dum prédio.
E se por acaso peido?

Natureza morta

Ecoa da praia a areia,
na água, tiro os sapatos,
não há quem agüente a meia.

Centro-Oeste

Inebriante aroma de ananás.
Vejo-me novamente
na estrada para Goiás.

Ludopédica

Revoa o bacurau.
O Coringão caiu prà segunda
torça prò Atlético de Bilbao.

Haikai na estranha língua falada pelos blatídeos com quem divido o apartamento

Etàmû-nje bajöléte
Tzarktínes ludokéta,
ni ertzîne, i raböréte.

(Não creio no que vejo,
bolinhas de naftalina
e para roer, um queijo.)

Víveres

O bosque está em sossego,
penso na paella valenciana,
mas os cobres, só prò churrasco grego.

Tempero

Sirvo sardinhas em lata;
escarafuncho minha coxinha
e eis uma perna de barata.

Dezembro 29, 2007

XVI. Os tempos de Dom Fernando Affonso

Em honra a um dos maiores presidentes que este país nunca teve, dedico-lhe uns humildes versejares, para recordar seus gloriosos e divertidos tempos de fartura e estabilidade. Com vocês, Os tempos de Dom Fernando Affonso.

Íam tempos de Dom Fernando,
aquele do saco roxo,
em que tudo ia definhando,
época de infarte e arroxo.

Ai, tempos de grã lambança!
Eis a abertura econômica
e a rapada da poupança.
Ah, previdência histriônica.

Dom Fernando Affonso, e tu?
Ias divertir-te com pós
lá p’lo buraco do tatu;
e ao fim, ficaste tu só

Dezembro 23, 2007

XV. Abstracto conceptualíssimo

Poësia é abstracção. Se queres escrever sobre o teu dia-a-dia, escreva um diário; poësia é metáphora e imagens distorcidas; é ver televisão sem antena e tentar adivinhar o preço do pão sem perguntar ao atendente da padaria. Por isso elaboramos, em versos livres, um abstracto conceptualíssimo.

Se as bagaceiras cantoneirassem,
cardinaríamos baratismos.
Mas, se acaso, as salsugens liberassem
gostos e calentismos,
eia, sus! que calafetaríamos morgues.

Que cantoplenia!
Alantoplecciono pelo theorema
- Thales que me perdoe -
e sinto-me desvanecido.

Eis que lá vêm os gregos bêbados;
buzuquiando, clamam por Catherina
e é visão demotiquina.
É mais-milhor catharevussar. Coinina.
Êmbolos, tômbola, frágola. Mágoa.
Estoiram frígidos os pintassilgos.

Dezembro 21, 2007

XIV. Haikai

Acho importantíssima a diffusão do haikai (ou haiku) como forma litterária de exercício, reflexão e concisão. Grandes poetas como Paulo Leminski e Guilherme de Almeida cultivaram haikais como quem, delicadamente, deposita o grão de feijão no algodão empapado donde, ao cabo de alguns dias, surge um fremoso brotinho.
O haikai é um broto de poesia, com seus gentis contilédones a erguer-se em direção à luz. Apresento-vos o meu pequeno haikai, brotinho de poesia, uma pequena sciência com tênues fragmentos de sýmbolos; em suma, uma pequena preciosidade.

Guarda-chuva chinês

Doce sabor de uva;
no toró espatifou-se-me
a merda do guarda-chuva.

Dezembro 20, 2007

XIII. A um viaducto

Como são admiráveis os viaductos
nos quais passam carrões e caminhões;
obras-primas de engenheiros argutos
e de prefeitos que embolsam milhões.

Dezembro 19, 2007

XII. Espasmo d’além-túmulo

O concretismo é, de facto, na literatura, carranca medonha e inútil. Arde a vista e doe o týmpano sentir os arrôtos lançados ao vento e à platea atônita como assim faziam os três Haroldos (os Haroldo de Campos propriamente ditos e mais Haroldo Pignatari). Do além-tumba, chega-nos pelo nosso paranormal anão de Goa, a seguinte excreção mediúnica:

Haroldo reloaded

Lixo
Luxo
Murcho
Bicha
Frouxo
……………..Xuxa?

Deixamos os juízos para os nosso leitores.

Dezembro 4, 2007

XI. Poesia livre em castelhano

La patata

A la patata, señores,
dedico todas mis acciones.
Cuando me como una frita,
o aunque sea una asada,
no me venga usted con mariconadas,
pues es así que se come las patatas.

¡Oh, patatas!
Hambre y honor de España,
se las tuviera comido Azaña,
salva estaría la república.

De las patatas, puré se hace.
Pero para hacerlas “dorées”,
mano dura se hace necesario.
¡Viva a la patata pura!
Y es a la patata pura
que puros versos cantaré.