Por minhas andanças na cidade grande, eu, Sigismundo Salamardo, vi vários animais, de vários tipos e espécies. Nos meus estudos de Zoologia e Botânica urbanas, me é obrigação destacar um animal muito peculiar: o coprocéfalo bípede, presente em grande número pelas paragens urbanas. O coprocéfalo bípede é um mamífero que vive da luz dos raios catódicos, emitidos principalmente por tubos de televisão. Assiste e comenta todo tipo de programa descartável: programas de auditório com raparigas semi-nuas, mesas redondas de ludopédio e espectáculos de ‘realidade assisitida’, como o ‘Grande Hermano’. E assim o coprocéfalo faz juz ao nome que carrega: enche a sua cabeça de merda.
Fevereiro 1, 2008
XIX. À monsieur le gouvernateur de l’État
Mariazinha, com’eu queria,
sair-me cá da terra,
dar uma cochiladinha
na caminha do Serra.
Janeiro 20, 2008
XVIII. Bela poesia em -ão
Para que não digam que rimas em -ão são pobres. É mero preconceito vulgar.
Voa o balão,
Cai o varão,
Nasce o grão,
Fazemos sabão,
Limpamos a mão.
Dezembro 29, 2007
XVI. Os tempos de Dom Fernando Affonso
Em honra a um dos maiores presidentes que este país nunca teve, dedico-lhe uns humildes versejares, para recordar seus gloriosos e divertidos tempos de fartura e estabilidade. Com vocês, Os tempos de Dom Fernando Affonso.
Íam tempos de Dom Fernando,
aquele do saco roxo,
em que tudo ia definhando,
época de infarte e arroxo.
Ai, tempos de grã lambança!
Eis a abertura econômica
e a rapada da poupança.
Ah, previdência histriônica.
Dom Fernando Affonso, e tu?
Ias divertir-te com pós
lá p’lo buraco do tatu;
e ao fim, ficaste tu só
Dezembro 23, 2007
XV. Abstracto conceptualíssimo
Poësia é abstracção. Se queres escrever sobre o teu dia-a-dia, escreva um diário; poësia é metáphora e imagens distorcidas; é ver televisão sem antena e tentar adivinhar o preço do pão sem perguntar ao atendente da padaria. Por isso elaboramos, em versos livres, um abstracto conceptualíssimo.
Se as bagaceiras cantoneirassem,
cardinaríamos baratismos.
Mas, se acaso, as salsugens liberassem
gostos e calentismos,
eia, sus! que calafetaríamos morgues.
Que cantoplenia!
Alantoplecciono pelo theorema
- Thales que me perdoe -
e sinto-me desvanecido.
Eis que lá vêm os gregos bêbados;
buzuquiando, clamam por Catherina
e é visão demotiquina.
É mais-milhor catharevussar. Coinina.
Êmbolos, tômbola, frágola. Mágoa.
Estoiram frígidos os pintassilgos.
Dezembro 21, 2007
XIV. Haikai
Acho importantíssima a diffusão do haikai (ou haiku) como forma litterária de exercício, reflexão e concisão. Grandes poetas como Paulo Leminski e Guilherme de Almeida cultivaram haikais como quem, delicadamente, deposita o grão de feijão no algodão empapado donde, ao cabo de alguns dias, surge um fremoso brotinho.
O haikai é um broto de poesia, com seus gentis contilédones a erguer-se em direção à luz. Apresento-vos o meu pequeno haikai, brotinho de poesia, uma pequena sciência com tênues fragmentos de sýmbolos; em suma, uma pequena preciosidade.
Guarda-chuva chinês
Doce sabor de uva;
no toró espatifou-se-me
a merda do guarda-chuva.
Dezembro 20, 2007
XIII. A um viaducto
Como são admiráveis os viaductos
nos quais passam carrões e caminhões;
obras-primas de engenheiros argutos
e de prefeitos que embolsam milhões.
Dezembro 19, 2007
XII. Espasmo d’além-túmulo
O concretismo é, de facto, na literatura, carranca medonha e inútil. Arde a vista e doe o týmpano sentir os arrôtos lançados ao vento e à platea atônita como assim faziam os três Haroldos (os Haroldo de Campos propriamente ditos e mais Haroldo Pignatari). Do além-tumba, chega-nos pelo nosso paranormal anão de Goa, a seguinte excreção mediúnica:
Haroldo reloaded
Lixo
Luxo
Murcho
Bicha
Frouxo
……………..Xuxa?
Deixamos os juízos para os nosso leitores.
Dezembro 4, 2007
XI. Poesia livre em castelhano
La patata
A la patata, señores,
dedico todas mis acciones.
Cuando me como una frita,
o aunque sea una asada,
no me venga usted con mariconadas,
pues es así que se come las patatas.
¡Oh, patatas!
Hambre y honor de España,
se las tuviera comido Azaña,
salva estaría la república.
De las patatas, puré se hace.
Pero para hacerlas “dorées”,
mano dura se hace necesario.
¡Viva a la patata pura!
Y es a la patata pura
que puros versos cantaré.